O TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO
Neide Aparecida Nery
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDA/H) é um transtorno bio-psicossocial, de causas genéticas, que aparece na infância e freqüentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Em inglês, também é chamado de ADD, ADHD ou de AD/HD.
É o transtorno mais comum em crianças e adolescentes encaminhados para serviços especializados. Ocorre em 3 a 5% das crianças, em várias regiões diferentes do mundo em que já foi pesquisado. Em mais da metade dos casos o transtorno acompanha o indivíduo na vida adulta, embora os sintomas de inquietude sejam mais brandos.
Acredita-se que, através de diagnóstico correto e tratamento adequado, um grande número de problemas como repetência escolar e abandono de estudos, depressão, distúrbios de comportamento, problemas vocacionais e de relacionamento, bem como o abuso de drogas, podem ser adequadamente tratados ou, até mesmo, evitados.
O TDA/H interfere na habilidade da pessoa de manter a atenção, controlar adequadamente as emoções e o nível de atividade, de enfrentar conseqüências consistentemente e na habilidade de controle e inibição (agem por impulso). As pessoas com TDA/H até podem saber o que deve ser feito, porém não conseguem fazer aquilo que sabem devido à inabilidade de realmente poder parar e pensar antes de reagir, não importando o ambiente ou a tarefa.
Na infância em geral se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças com TDA/H, em especial os meninos, são agitadas ou inquietas. Freqüentemente têm apelido de "bicho carpinteiro", “elétricas”, “desengonçadas”, “diabinhos”, desajeitadas”, ou coisa parecida.
Na idade pré-escolar, estas crianças mostram-se agitadas, movendo-se sem parar pelo ambiente, mexendo em vários objetos como se estivessem “ligadas” por um motor. Em ambientes fechados, mexem em vários objetos ao mesmo tempo, derrubando grande parte deles no ímpeto de manipula-los simultaneamente. Mexem pés e mãos, não param quietas na cadeira, falam muito e constantemente pedem para sair de sala ou da mesa de jantar. Elas têm dificuldades para manter atenção em atividades muito longas, repetitivas ou que não lhes sejam interessantes. São facilmente distraídas por estímulos do ambiente externo, mas também se distraem com pensamentos "internos", isto é, vivem "voando".
Nas provas, são visíveis os erros por distração (erram sinais, vírgulas, acentos, etc.). Como a atenção é imprescindível para o bom funcionamento da memória, elas em geral são tidas como "esquecidas": esquecem recados ou material escolar, aquilo que estudaram na véspera da prova, etc. (o "esquecimento" é uma das principais queixas dos pais).
Elas também tendem a ser impulsivas (não esperam a vez, não lêem a pergunta até o final e já respondem, interrompem os outros, agem antes de pensar). Freqüentemente também apresentam dificuldades em se organizar e planejar aquilo que querem ou precisam fazer. Embora possam ser inteligentes e criativas, seu desempenho sempre parece inferior ao esperado para a sua capacidade intelectual.
O TDA/H não se associa necessariamente a dificuldades na vida escolar, embora esta seja uma queixa freqüente de pais e professores. É mais comum que os problemas na escola sejam de comportamento que de rendimento (notas).
É importante destacar que o termo original para o Distúrbio do Déficit de Atenção (DDA) não traduz com precisão ou mesmo com justiça o que ocorre com a função da atenção no DDA. Se por um lado o adulto e a criança têm profunda dificuldade em se concentrar em determinado assunto ou enfrentar situações em condições de obrigatoriedade, por outro lado podem apresentar-se hiperconcentrados em determinados assuntos ou atividades que lhes despertem interesse espontâneo ou paixão impulsiva, como é o caso de crianças com jogos eletrônicos ou adultos com esportes, computadores ou leitura de assuntos específicos.
Quando se dedicam a fazer algo estimulante ou do seu interesse, conseguem permanecer bem mais tranqüilas. Isto ocorre porque os centros de prazer no cérebro são ativados e conseguem dar um "reforço" no centro da atenção que é ligado a ele, passando a funcionar em níveis normais. O fato de uma criança conseguir ficar concentrada em alguma atividade não exclui o diagnóstico de TDA/H. É claro que não fazemos coisas interessantes ou estimulantes desde a hora que acordamos até a hora em que vamos dormir: os portadores de TDA/H vão ter muitas dificuldades em manter a atenção em um monte de coisas.
Apesar de que em algumas ocasiões sua vida com a criança pode parecer difícil, é importante saber que sua criança com TDA/H podem obter êxito, e o fará. Como pais, vocês podem ajudar a criar um ambiente em casa e na escola que melhore as probabilidades de êxito de sua criança. Quanto mais vocês entenderem os problemas de sua criança, melhor poderão prevenir o fracasso escolar e social e seus males associados.
A maneira mais eficiente de tratar o TDAH, e a que mais traz resultados positivos, é o trabalho multidisciplinar, que envolve tanto abordagens individuais (medicação, acompanhamento psicológico, terapias específicas, técnicas pedagógicas adequadas), como estratégias para as outras pessoas (terapia para os pais ou família, esclarecimento sobre o assunto para pais e professores, treinamento de profissionais especializados).
O primeiro passo nesse tratamento multidisciplinar é a psicoeducação dos pais. É de suma importância que eles se informem o melhor possível sobre o transtorno em si e as estratégias que ajudam a minimizar os problemas acarretados por ele, para que possam orientar o filho portador, fazer as acomodações necessárias no ambiente familiar e elucidar ou colaborar com a escola e os terapeutas necessários para o tratamento clínico.
Uma vez determinado o problema, pais, professores e terapeutas planejam juntos as estratégias e intervenções a serem implementadas (modificação do ambiente, adaptação do currículo, adequação do tempo de atividade, acompanhamento de medicação etc.). Freqüentemente, professores de crianças com TDAH sentem tanta frustração quanto seus pais.
Como os alunos são seres humanos únicos, com características específicas, e nenhum conjunto isolado de sugestões e estratégias funciona na inter-relação de todos os professores com todos os alunos. É uma questão de ajuste de ambas as partes. Algumas vezes, é preciso tentar várias intervenções antes que algum resultado positivo apareça. Daí a necessidade de se escolher a escola e o método de ensino mais adequados para o aluno, especialmente o aluno com TDAH.
O sucesso escolar de portadores de TDAH exige uma combinação de intervenções terapêuticas, cognitivas e de acompanhamento. Com esse apoio, a maioria pode, perfeitamente, acompanhar classes regulares.
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